"Pagine
corsare"
Libri
Todos os Corpos de
Pasolini
Luiz Nazario
ENTREVISTA "2001VIDEO"
2001 video
http://www.2001video.com.br/default.asp
Entrevista com o autor
Como
conheceu o cinema de Pasolini? Qual é a primeira lembrança
desse contato?
O primeiro filme de Pasolini
que vi foi Medéia, no antigo Cine Bijou. Fiquei apaixonado pelo
Centauro! Logo depois vi Édipo Rei e me espantei com a imagem da
árvore sagrada e a visão simples e eficaz da Esfinge como
uma máscara primitiva de corpo inteiro. Logo decifrei as metáforas
escabrosas de Pocilga e mergulhei no universo erótico e sagrado
de Teorema. Sou, por isso, infinitamente grato ao cine Bijou, aquela pequena
sala na Praça Roosevelt cujo porteiro visionário fechava
um olho para deixar os jovens cinéfilos como eu, que não
haviam completado dezoito anos, entrar em contato com o cinema moderno.
Ali vi: Persona, A Hora do Lobo, Gritos e Sussurros, Diabólicos
Sedutores, Vanishing Point, Pequenos Assassinatos, Sob o Domínio
do Medo, A Noite dos Desesperados, Outback, O Mensageiro, O Criado, O Belo
Antônio, Domingo Maldito, Longe Deste Insensato Mundo, Esse Mundo
É dos Loucos, O Bebê de Rosemary, Delírio de Amor,
Mulheres Apaixonadas, Lisztmania, Mahler, Valentino, Morte em Veneza, Os
Deuses Malditos, Violência e Paixão, Metello, Este Crime Chamado
Justiça, O Jardim dos Finzi Contini, Satyricon, Roma, Ammarcord,
A Bela da Tarde, A Via Láctea, O Discreto Charme da Burguesia, O
Fantasma da Liberdade, Z, A Confissão, Estado de Sítio, Próxima
Parada Bairro Boêmio, Madame Rosa, Ensina-me a Viver, Voar É
com os Pássaros, Três Mulheres, Nashville, Depois Daquele
Beijo, Zabriskie Point... O cinema dos anos de 1960-1970 tinha uma qualidade
humana, política e perversa que nos fazia respirar mesmo sob a ditadura
e que desapareceu com a cada vez mais dominante cultura de massas produzida
sob o terror da AIDS. Ver todos esses filmes maravilhosos na adolescência
fez de mim um apaixonado pelo cinema complexo, elitista e libertário,
de que Pasolini era um dos principais representantes.
O que proporcionou o florescimento
do cinema e de toda produção teórica de Pasolini?
Em outras palavras, quais as influências do cineasta e escritor Pasolini?
O que fez Pasolini passar
da língua escrita (literatura) para uma mais complexa língua
escrita da ação (cinema) foi sua percepção
de que, de modo catastrófico, o italiano técnico tornara-se,
nos anos de 1960, a língua dominante na Itália. Desapareciam
os dialetos, as pequenas culturas locais, os particularismos regionais,
em benefício da nova cultura técnica produzida e consumida
pelas massas aburguesadas, e representada, sobretudo, pela publicidade
e pela televisão. Isto fez com que, por volta de seus 40 anos, e
sem nenhuma formação técnica em cinema (a não
ser sua atividade de roteirista), o então já famoso escritor
abandonasse a escritura de romances (e dos roteiros que escrevia para outros
diretores) e se dedicasse à realização de seus próprios
filmes. Como cineasta sem compromisso com a indústria do cinema,
Pasolini encontrou o que procurava: uma língua mais próxima
da realidade de seus personagens saídos dos campos de Friuli e das
periferias de Roma, dos rapazes pobres e marginais que ele amava noite
após noite. Conviver durante todo o tempo de filmagem com os corpos
que eram os objetos de seu desejo foi uma das principais motivações
de Pasolini. Movido por essa primeira motivação, desenvolveu
um tipo de narrativa que, servindo-se da música sacra (por exemplo,
em Desajuste social, Mamma Roma, O Evangelho Segundo S. Mateus) e da pintura
sacra (por exemplo, em A Ricota, Decameron, Os Contos de Canterbury), aproximava
seu Eros do universo mítico. Sua prática cinematográfica
inspirou-o a criar uma semiologia da realidade pela associação
do código da vida a um plano-seqüência infinito, num
contexto em que a morte seria necessária para dar sentido à
vida. A morte remeteria à edição de um filme, sendo
o diretor que edita seu próprio filme comparável àquele
que fala através da realidade: Deus. Essa teoria levou Pasolini
a sacralizar tanto o cinema (autoral) quanto a realidade (humana). E, dentro
desta realidade, o sexo estava, para Pasolini, em primeiro plano.
Qual a importância
de ainda investigar e questionar as ocasiões do assassinato de Pasolini?
A importância da reabertura
do processo está, mais do que em solucionar o próprio crime,
em investigar as razões pelas quais o assassinato não foi
devidamente investigado na época. Passados mais de trinta anos,
já desapareceram as evidências materiais que poderiam ser
encontradas, e que eventualmente serviriam para conduzir os investigadores
aos verdadeiros autores do massacre de Pasolini, já que Pino Pelosi
não foi seu único perpetrador, como se suspeitava à
época, e conforme o próprio assassino recentemente confessou.
Mas se dificilmente encontrarão provas, ainda é possível
investigar o próprio processo e descobrir os responsáveis
pelo acobertamento do crime político e homofóbico, acobertamento
igualmente motivado por ódio político e homofobia: toda a
simpatia dos poderes públicos e das mídias sensacionalistas
foi dirigida ao agente criminoso, e não à vítima do
crime. Mesmo alguns intelectuais, como o poeta vanguardista Edoardo Sanguineti,
comemoraram a morte de Pasolini: “Finalmente nos livramos, aos pontapés,
desse confusionista, resíduo dos anos cinqüenta”, ele escreveu.
O cinema de Pasolini é
considerado por muitos como um cinema de poesia, em oposição
a um cinema narrativo. Você pode comentar um pouco sobre isso?
Já caí neste
erro. Mas ao reler atentamente o famoso ensaio “Il Cinema di Poesia”, publicado
na revista Filmcritica em 1965, percebi que ele usava o termo para definir
o novo cinema que via surgir, ao acompanhar os festivais de cinema nos
quais seus primeiros filmes eram selecionados. Ele percebia que este cinema
podia ser produzido e exibido com certo sucesso graças à
existência de um segundo canal de exibição, de um novo
mercado basicamente formado por jovens universitários saídos
da burguesia, mas que tinham uma visão de mundo supostamente contrária
à ideologia de seus pais. Embora seus filmes se confundissem com
esse cinema de poesia, em contraste com o cinema de prosa narrativa, cuja
linguagem desenvolvida por Griffith, Ford, Hitchcock, Wilder, etc. predominava
no chamado cinema comercial, Pasolini não os enquadrava neste conceito.
Ele criara o conceito justamente para polemizar contra o cinema de poesia
cujos cineastas (Godard, Glauber, Antonioni, Forman, etc.) acreditavam-se
revolucionários. Mas esses “revolucionários” eram, a seu
ver, burgueses em sua vida e na vida reproduzida em seus filmes, apenas
se beneficiando deste segundo canal de exibição, ou seja,
fazendo filmes comerciais para uma elite intelectual, que os consumia como
produtos “revolucionários” contra a ideologia burguesa de seus pais.
É o mesmo sentido que deve ser procurado no poema “O PCI aos jovens!”,
no qual Pasolini alertava que os jovens revolucionários de 1968
eram os empresários de amanhã e que sua simpatia pendia para
os policiais apedrejados que eram os pobres de sempre... Pasolini, que
não levava uma vida burguesa e não fazia um cinema comercial
nem um cinema revolucionário entre aspas, tinha consciência
do que fazia e da vida objetivamente revolucionária que levava;
e que o levaria a ser assassinado. Ele desejava que seus filmes (eu os
chamaria de cinema de prosa poética, pois não se identificavam
nem com o cinema de prosa narrativa, nem com o cinema de poesia) fossem
vistos pelo que eram: cinema hermético, aristocrático, dirigido
à elite intelectual, revolucionário por sua dimensão
erótica, mítica e antropológica – sua Grande Recusa
da sociedade industrial.
Qual o legado e a importância
da obra do escritor, poeta e cineasta italiano hoje?
A obra do escritor Pasolini
é imensa: mais de 16 mil páginas de poemas, romances, contos,
crônicas, ensaios, peças, roteiros e cartas. Este é
o corpus de Tutte le Opere do escritor, recentemente publicadas pela Mondadori
em dez volumes (o maior número entre os autores da coleção
de obras completas I Meridiani). Mas Pasolini também foi um dos
grandes cineastas do cinema moderno, e realizou, em apenas quatorze anos
de atividade, como diretor, 26 filmes, além de conceder inúmeras
entrevistas para a rádio e a TV, evidentemente não incluídas
em suas “obras completas”. Trata-se, enfim, de um autor multimídia,
que antecedeu de décadas nossa atual realidade multimídia.
Hoje é possível reunir as obras completas de um autor multimídia
em livros acompanhados de uma coleção de DVDS, e talvez no
futuro, isto seja feito com autores como Pasolini. A importância
deste legado também é imensa: Pasolini foi o profeta de uma
homossexualidade revolucionária; o maior poeta italiano do século
XX na visão de Alberto Moravia; um pensador libertário que
eu colocaria ao lado de Jean-Paul Sartre e Herbert Marcuse; um cineasta
que marcou, com sua sacralização da realidade, a teoria e
a prática do cinema moderno; e um polemista radical, que denunciou,
antes de todos, que a sociedade tecnológica estava, com o apoio
de intelectuais hipócritas e conformistas, destruindo o mundo humano
e gerando uma violência de massa, sob um poder sem ética,
falsamente tolerante, que oferecia o sexo e o consumo compulsórios
como paliativos: um sistema dominado por corruptos de direita e de esquerda,
e que Pasolini considerava mais fascista que o velho regime fascista.
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